ELEIÇÕES EUA: A JOANA D'ARC DO ALASCA!
A escolha de Sarah Palin para candidata a Vice-Presidente dos Estados Unidos no “ticket” de John McCain surpreendeu tudo e todos. Os ataques ferozes da imprensa norte-americana levantaram dúvidas quanto à escolha. Esta madrugada percebeu-se que estamos perante um fenómeno da política. Fiquei preocupado.
Não posso afirmar que simpatizo com grande parte das ideias políticas da governadora do Alasca, bem pelo contrário. No entanto, ontem resolvi deixar o gravador programado para o discurso daquela que é a mulher mais falada no mundo inteiro.
A curiosidade resultava essencialmente de dois factores. Em primeiro lugar os consultores políticos norte-americanos são hiper-competentes. Conhecem bem o meio em que se inserem, e para Palin ter sido escolhida é porque foi considerado que com ela McCain poderia ganhar. Em segundo lugar, começa a fazer-me comichão na orelha a forma como a impressa trata Barak Obama, que continua sem nada dizer de realmente importante, adoçando um discurso fácil e tecnicamente dirigido, e os elogios são constantes. Controlando a imprensa, a máquina Obama tentou já destruir Sarah Palin. Porque? O que temem?
Há pouco, vi mais uma excelente lição de política. Sarah Palin é um fenómeno. Fez um dos melhores discursos de que me lembro. Mostrou competência, capacidade, humor, convicção. Mostrou que pode vir a ser a grande arma de arremesso contra Obama.
Tem tudo o que ele tem. Tem mais e melhor. Tal como Obama tem um discurso de ruptura. Mas ao contrário de Obama, como não deixou de salientar, afirmou-se no terreno. Enquanto Obama passeava por Washington sem nenhuma lei significativa produzir, ela governava a sua cidadezinha, tão bem que o seu desempenho e coragem de afrontar o establishment a levaram a governadora do Alasca. Afirmou a sua obra.
Deu a conhecer ao mundo a forma como tratou com as petrolíferas, e aqui esperamos que José Sócrates tenha estado atento, porque a política da Governadora do Alasca tem o acordo de todos – excepto das petrolíferas e do nosso ministro das finanças -. Colocou-as na ordem, não permitiu especulações, mas não deixa de fomentar o desenvolvimento do sector. Não deixando de recordar que como reformou as finanças do seu Estado e colocou as contas públicas na ordem, isso lhe permitiu, nesta fase de aumento do petróleo, e consequente aumento de receitas fiscais, perante as dificuldades das pessoas, devolver aos contribuintes o que estava a cobrar a mais nas taxas do petróleo.
Sarah Palin sabe perfeitamente porque desde Kennedy os americanos têm optado por escolher governadores para presidentes. Palin sabe que o votante médio norte-americano, com quem ela contacta no seu dia-a-dia de governação, não gosta muito do pessoal de Washington.
Depois de afirmar a sua experiência na resolução dos problemas dos seus eleitores, e que é por isso, para resolver os problemas das pessoas que vai para Washington e não para satisfazer a imprensa, iniciou o mais contundente ataque que já se ouviu contra Barak Obama.
Afirmar que Obama já escreveu dois livros de memórias mas não escreveu qualquer peça de legislatura significativa foi um murro directo ao estômago do adversário, e vai certamente passar em todos os noticiários.
Afirmar que “em política, há alguns candidatos que utilizam a mudança para promover as suas carreiras. E que há aqueles como John McCain, que usam a sua carreira para promover a mudança”, foi quase um KO.
Naturalmente a equipa de Obama já contra-atacou, mas como? Afirmando que o discurso está muito bem escrito, elaborado por Matthew Scully, conselheiro de Bush, e que seguia o mesmo tipo de ataques que se ouvem de George Bush. Um sinal do sucesso do discurso, e também do desnorte da equipa de Obama. É um erro dizer que o discurso de Palin foi escrito por Scully, porque todos os americanos sabem que não são os políticos de primeira linha que escrevem os seus discursos. Obama não escreve os seus discursos. Por outro lado, o discurso teve demasiados aspectos pessoais, estava demasiado bem concebido para a oradora, para ter sido só Scully a fazê-lo, que mal a conhece.
Tive o cuidado de investigar um pouco mais, e fui ouvir os extractos de discursos de Sarah Palin que estão disponíveis na net. E percebi, como certamente perceberam os conselheiros de Obama, que este é foi um discurso à Palin. Scully fez parte da equipa, terá tratado da redacção final, os conselheiros habituais de Palin fizeram parte da equipa, e a própria participou na sua elaboração. O normal.
Complicado para os Democratas, é que a força que Palin evidenciou é natural. A mulher é mesmo uma força da natureza.
Sarah Palin é a mulher da pequena cidade dos Estados Unidos que quer por Washington na ordem, como já o fez na capital do seu Estado. Um dos verdadeiros sonhos americanos. Uma história tantas vezes repetida no cinema, e que desta vez se pode tornar realidade. O pior para Obama é que ela não parece, é mesmo “the real thing”.
Palin, conservadora, “rural”, representante da América Profunda, é o verdadeiro contraponto para o elitismo e urbanismo, não apenas de Obama ou Joe Biden, mas também do próprio McCain. Sarah Palin é a candidata das bases.
Palin agrada às mulheres, agrada ao americano trabalhador médio, agrada ao americano do interior.
Até hoje de manhã julgava que Barak Obama tinha a eleição ganha. Agora tudo pode mudar.
Tanto mais que me parece que a “entourage” de Obama não percebeu o que tem pela frente pois, pelo menos para já, não está a ser capaz de desmontar a candidata. As primeiras afirmações do pessoal de campanha de Barack Obama são preocupantes.
Ao contrário do que acontece na Europa, mais velha e sábia, os conselheiros de Obama desvalorizam o presidente da câmara municipal, desvalorizam o que Palin anda a realizar no longínquo Alasca.
Note-se que não se lê uma crítica à sua politica enquanto governadora – e na Europa haveria muita coisa a pegar, como o seu conservadorismo atroz na (não) defesa das espécies ameaçadas, só que é tema que não dá votos nas eleições presidenciais americana. Porquê? Porque as suas medidas são demasiado populares.
Donna Brazile, estratega do Partido Democrata, afirmou na CNN: “O que fez ela hoje? Claro, com a fasquia tão baixa na expectativa dos média, ela a superou. Mas daqui a 29 dias, no debate vice-presidencial, qual vai ser a sua performance? Os americanos esperam que ela saiba um pouco mais sobre economia, criação de emprego, e como colocar a economia a funcionar outra vez.”
Pois foi precisamente isto que Sarah Palin andou a fazer com sucesso nos últimos anos a nível local e estadual. Obviamente Brazile cumpriu a sua missão: tentar desvalorizar a candidata. Espero que não acredite no que afirmou. Se acreditar Palin cilindra Biden no debate.
Está muito bem preparada, é uma mulher de ferro – a pressão a que tem sido sumetida pela imprensa é impressionante, mas não afectou a sua prestaçã -, tem um enorme carisma. Sarah Palin, associa a estas qualidades, a defesa intransigente daquilo que considera ser o melhor para os seus eleitores, não se importando de para isso enfrentar o establishment do seu partido.
Palin sabe actuar politicamente. Por exemplo, Obama só foi agora visitar tropas americanas. Palin já lá esteve. A senhora Governadora visita os seus militares deslocados no estrangeiro (Como se vê na foto, com mais de um ano). Obama quer criar medidas para controlar os lucros das petrolíferas. Palin já o fez. Obama que r lançar uma política de fomento do emprego. Palin já o fez.
O grande problema da organização do debate para os democratas, é que provavelmente para muitos assuntos relacionados com a economia e o emprego, bem como relativamente a muitos outros, Sarah Ballin pode mostrar obra, enquanto que Joe Biden poderá ser encostado às cordas com afirmações do género: nunca saiu de Washington, que sabe da realidade se nunca a viveu, etc..
Na política cá do burgo, ela associa o “basismo” (Obra em resposta às necessidade da população) que em Sintra reconhecemos a Fátima Campos, ao nível de estadismo, combate, carisma e visão de um Francisco Sá Carneiro.
O problema: é que com a visão de Sá Carneiro estaria quase 100% de acordo. Com a de Sarah Palin, estarei muito em desacordo. Digo-o, porque não deixei de ficar cativado por aquele discurso – até porque Palin, como seria de esperar, não avançou nos temas fracturantes.
Penso que ela vai ser a força de ataque da campanha McCain. McCain vai ser o candidato institucionalmente correcto. Sarah Palin tratará dos ataques a Obama.
Mas atenção, provavelmente McCain e a sua equipa não escolheram apenas uma candidata a Vice-Presidente, escolheram a sucessora. É elementar pensar que Hillary Clinton poderá ser a próxima candidata democrata. Sarah Palin, enquanto mulher política, bate Hillary aos pontos, e poderá ser o impulso de renovação do Partido Conservador, um dos sonhos assumidos de John McCain.
A América Profunda que elegeu George Bush face a Al Gore, certamente já tem uma heroína.
Al Gore teve mais votos que Bush, mas nos EUA o que é preciso é ganhar mais “grandes eleitores”. Conseguir a maioria no colégio eleitoral. Para isso a América Profunda é nodal.
Também não podemos esquecer que Barack Obama teve menos votos que Hillary Clinton (Algo que não me lembro de ver escrito na imprensa portuguesa), e não conseguiu agradar ao eleitorado da América Profunda. E não é o seu candidato a vice-presidente que o vai conseguir. Ou seja, com o previsível impulso que Sara Palin vai dar à campanha McBain, Obama tem pela frente um cenário muito complicado.
Certo é que o eleitorado de Bush ficou hoje cativado e convertido. As dúvidas quanto a McCain acabaram. Têm mulher! E ainda por cima cheia de charme.
Percebe-se melhor porque a imprensa local há algum tempo a chamou de Joana d'Arc da política.
Nasceu uma estrela.
Aconteça o que acontecer, fica a satisfação de que em Janeiro George Bush já não será Presidente dos Estados Unidos.



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